SECTARISMO RELIGIOSO NO CRISTIANISMO

Do Autor Ézio Luiz – http://www.ezioluiz.com.br
Porque não ousamos classificar-nos, ou comparar-nos com alguns, que se louvam a si mesmos, mas estes que se medem a si mesmos, e se comparam consigo mesmos, estão sem entendimento
[II Co. 10:12]

Perde-se na noite dos tempos a mentalidade segundo a qual o “meu” é melhor do que o “teu” e pronto; “ponto final”! Com efeito, desde tempos imemoriais o ser humano exalta o seu “umbigo” e exclui o “outro”, estendendo até aos dias de hoje. Foi a partir da primeira afirmação humana pueril, segundo a qual “isso é meu”, começaram-se os conflitos sociais. Esse fenômeno egocêntrico reflete nos inúmeros grupos e espaços sociais e, como não poderia deixar de ser, nas organizações eclesiásticas. Decerto, não é diferente no Cristianismo e suas diversas ramificações. Os discípulos também pensaram em plantar, no início da Era Cristã, um sectarismo religioso excludente, mas Jesus os repreendeu. Veja aqui.

“38. E João lhe respondeu, dizendo: Mestre, vimos um que em teu nome expulsava demônios, o qual não nos segue; e nós lho proibimos, porque não nos segue.
39. Jesus, porém, disse: Não lho proibais; porque ninguém há que faça milagre em meu nome e possa logo falar mal de mim.
40. Porque quem não é contra nós é por nós”
[Mc. 9: 38-40]

Nessa quadra, o grupo – que se diz cristão – exclusivista, que se forma sob uma “revelação divina” excludente com relação ao que “não joga no mesmo time”, “não bebe do mesmo cálice”, “não reza na mesma cartilha” ou “não sobe as mesmas escadas”, dissemina uma mentalidade sectarista, nociva, de intolerância, proclamando que Cristo está apenas consigo e não aceita diálogo antagônico sobre o assunto. Não aceita questionamento de seus dogmas, construídos sobre suas “verdades perfeitas”. Jesus responde: “Porque onde estiverem dois ou três reunidos em meu nome, aí, estou eu no meio deles” [Mt. 18:20]. Portanto, não há essa exclusividade, à luz da Palavra de Deus.

Nessa perspectiva, quem – ou qual grupo – está legitimado a afirmar que detém o monopólio da “revelação” de Deus? Quem está autorizado por Deus a detê-lO encarcerado a uma organização? Quem tem a chave da “revelação divina”? Quem consegue encarcerar o Espírito Santo dentro de suas paredes sectaristas soberbas? Quem tem “autoridade divina” para subtrair de outrem o ministério, se a Bíblia afirma, com todas as letras: “porque os dons e a vocação de Deus são irrevogáveis” [Rm. 11:29]? Afinal, ninguém é bom juiz em causa própria; sempre será suspeito.

Não raro se vê uma organização religiosa inflexível que se auto-proclama “igreja verdadeira”, “igreja perfeita”, “igreja mãe” (?!), “A Igreja Fiel” etc. Eis a resposta de Deus, no texto em epígrafe: “Porque não ousamos classificar-nos, ou comparar-nos com alguns, que se louvam a si mesmos, mas estes que se medem a si mesmos, e se comparam consigo mesmos, estão sem entendimento” [II Co. 10:12] e “Porque não é aprovado quem a si mesmo se louva, mas sim aquele a quem o Senhor louva” [II Co. 10:18]. Assim diz o Senhor, pela boca de Salomão: “A soberba precede a ruína, e a altivez do espírito precede a queda” [Pv. 16:18]. Outro texto na mesma linha: “Quem a si mesmo se exaltar será humilhado…” [Mt.23:12].

Deveras, o próprio Jesus, alertando quanto àqueles que testemunham de si, apregoou: “Se eu testifico de mim mesmo, o meu testemunho não é verdadeiro” [Jo. 5: 31]. No Antigo Testamento, há um texto bem sugestivo: “Seja outro o que te louve, e não a tua boca; o estrangeiro, e não os teus lábios” [Pv. 27:2]. No Brasil há centenas de denominações religiosas que se dizem cristãs, dentre as quais uma meia dúzia acentuadamente sectarista, cujo discurso aponta erros doutrinários nos outros e não enxerga os seus, muitos dos quais maiores. Esses – fariseus contemporâneos – acreditam que portam a melhor interpretação bíblica. E qual o grupo que não pratica algum tipo de heresia? “Quem não tiver pecado, atire a primeira pedra”.

Sob esse viés, observar-se-á que há características recorrentes em grupos sectarista, cuja mentalidade é formatada por “líderes” espertos, utilizando de sutil linguagem hipnótica e um poder de persuasão inconsciente, com reiterados “bombardeios fraseológicos” repetitivos, “brados manipuladores repetitivos”, catequizando de tal forma que o “fiel” subserviente se culpa por pensar diferente e abandonar o “barco sectarista”. Quem está autorizado por Deus a afirmar: “nós somos os verdadeiros; nós somos os melhores”? Esse testemunho é suspeito e falso. Constitui um evidente fanatismo religioso.

Há dois textos veterotestamentários, escritos por um pai e por um filho, ambos reis de Israel, a respeito do tema do exclusivismo ou isolacionismo. Davi escreveu: “Oh! Quão bom e quão suave é que os irmãos vivam em união!” [Salmo 133:1]. Seu filho, Salomão, seguindo linha semelhante, proclama: “Busca o seu próprio desejo aquele que se separa; ele insurge-se contra a verdadeira sabedoria” [Pv. 18:1]). Será que Davi estava se referindo a um grupo isolado de irmãos (leia-se: organização religiosa) ou a todos os que proclamam a mesma fé em Deus? Será que Salomão estava se referindo a uma religião isolada ou a todos os que estão sob o mesmo estandarte da fé? É intuitiva a resposta para quem tem olhos de bem enxergar.

Portanto, ninguém está autorizado ou legitimado por Deus a proclamar que detém a melhor interpretação bíblica, desprezando a alteridade. Decerto, a conclusão hermenêutica depende do olhar interpretativo e da linha que se adota. Não existe verdade denominacional irrefutável; existe versão subjetiva. Quem confere caráter absoluto e irrefutável ao seu ponto de vista, cai-se num fundamentalismo, porquanto não tolera o ponto de vista do outro e se diz portador da “verdade revelacional genuína” (sob o ponto de vista de quem? Seu próprio?). Quando o líder eclesiástico venera a sua “verdade”, deixa de tolerar a do outro e essa intolerância gera agressividade. Certo é que a agressividade começa quando faltam os argumentos.

Com efeito, quando se trabalha com o tema “sectarismo religioso”, ou outro semelhante, conforme sinônimos acima elencados em notas de roda-pé, tem-se em mente uma doutrina na qual se prega que a vontade de Deus está presente exclusivamente dentro de uma organização eclesiástica, que detém, em suposto monopólio, a salvação, a benção e o conhecimento mais evoluído do plano de Deus e das “revelações” divinas, por isso detém em suas mãos, a “verdade revelacional absoluta”; o “resto é resto”. Destarte, a cúpula sectarista não admite questionamentos porque detém sozinha a “revelação divina”, e quem a abandona é “réu de juízo”. Esse discurso, à luz da Palavra de Deus, é opressor, herético e falso.

E quem está do outro lado do grupo dos “nazistas religiosos”, é inimigo, razão pela qual é rotulado com expressões pejorativas e irônicas. Os sectários são tristes, severos, arrogantes, inflexíveis, pedantes, opressores, carregam uma “falsa santidade”, porque são hermeticamente voltados para o seu ego religioso “imaculado”, daí não serem acessíveis, nem flexíveis, ao diálogo das diferenças. Destarte, não respeitam o ponto de vista teológico alheio. Não raro têm vida dupla e no seu discurso monocular subjazem interesses “misteriosos”, voltados para si. Esse pequeno fermento compromete a denominação exclusivista, pois, afinal, no texto bíblico, “um pouco de fermento leveda toda a massa” [Gl. 5:9].

Assim é que, o indivíduo seduzido inconscientemente por esse ensinamento equivocado acredita piamente, no seu íntimo, que pertence a uma casta religiosa privilegiada e perfeita, frente a outros irmãos que adotam outros dogmas, e é detentor de verdades mais elevadas, e da “revelação” mais plena do desejo de Deus para o Seu povo. Trata-se de comportamento manipulador. Isso é um estelionato religioso porque tende a ludibriar os menos avisados, notadamente aos menos cultos, numa manipulação de massa, em coletivização de dogmas sectarístas, num charlatanismo evidente, porque escandaliza o que não está no mesmo redil.

Esse “tribalismo religioso” e excludente, não tem respaldo bíblico. Não obstante, apóiam-se em textos bíblicos fora do contexto, numa hermenêutica fechada e distorcida, em simbologias bíblicas subjetivas não autorizadas pelo Texto Sagrado, criando uma fronteira narcísica egocêntrica separatista. Esse isolacionismo que transporta o fiel para uma ilha no meio de um oceano amplo fere de morte a linha neotestamentária e não se compraz com o perfil do Evangelho de Cristo. Aliás, Jesus Cristo nunca pregou o sectarismo. Vai dizê-lo o Mestre: “Porque Deus amou o mundo de tal maneira que deu o seu Filho unigênito, para que todo aquele que nele crê não pereça, mas tenha a vida eterna” (Jo. 3:16). Decerto, a salvação não está vinculada a um grupo exclusivista, elitistas, que se acha superior aos outros.

Sob esse viés, o sectarista religioso não tolera o outro, tal aquele que “não bebe do mesmo cálice”, “não acende a mesma vela”, não está “no mesmo ninho”, não navega “no mesmo barco” razão pela qual não consegue conviver com a diversidade doutrinária evangélica, porquanto se julga superior no conhecimento de Deus, vale dizer, se julga “representante exclusivo de Deus” e, segundo entende, monopoliza a “revelação”, como o faziam os fariseus dos tempos neotestamentários, o que se revela absurdo. Não há respaldo bíblico para essa tese. Assim, o referido comportamento é fruto de mente doentia, de idéia patológica, típica de quem não conhece, com profundidade, as Sagradas Escrituras. Toda interpretação textual traz a reboque um subjetivismo/relativismo questionável. E qual a interpretação correta? Sob o ponto de vista de quem?

Cristo convivia com a diversidade e nunca outorgou “mandatos” a quaisquer denominações eclesiásticas, como sendo “a verdadeira” ou identificável como tal. Ao revés. Cristo mantinha diálogo com grupos diferentes e os seus discursos mais rigorosos foram exatamente aqueles em confronto com os religiosos, máxime os fariseus. Quem incitou a crucificação do Messias foram religiosos sectaristas. Não se confunde igreja de Cristo com organização eclesiástica. A primeira é espiritual/virtual; a segunda é mensurável/visível. A primeira é difusa; a segunda é concentrada. A primeira não se limita a espaço e tempo; a segunda se demarca em circunstância espacial e temporal. A primeira não porta uma bandeira denominacional ou um rótulo; a segunda se identifica por uma bandeira representativa de uma logomarca exclusivista e excludente etc..

À sombra desse raciocínio, observar-se-á que um grupo nos arredores da Grécia Antiga dos tempos neotestamentários, adotava uma linha de gueto eclesiástico, grupo sectário, descrito no Apocalipse [Ap. 3: 17], grupo em face do qual o Senhor Jesus proferiu palavras de exortação: “pois dizes: Estou rico e abastado e não preciso de coisa alguma, e nem sabes que tu és infeliz, sim, miserável, pobre, cego e nu”. A propósito, Jesus adverte: “Nem todo o que me diz; Senhor, Senhor! Entrará no reino dos céus, mas aquele que faz a vontade de meu Pai, que está nos céus” [(Mt. 7:21]. E a vontade do Pai não se coaduna com esse sectarismo religioso.

A propósito, sob a direção de Jean-François[2], em pesquisas interessantes acerca das chamadas “Sociedades Secretas” – para citar apenas um caso de sectarismo religioso registrado na história – detectou-se nos arcanos do Vaticano, a “Opus Dei” (latim: “Obra de Deus”) ou apelidada “A Obra”, organização sectarista criada num mês de outubro (mês de seu aniversário), criada nos porões do Vaticano, pelo espanhol José Maria Escrivá de Balaguer (1902-1975), cuja canonização em Roma se deu em outubro de 2002.

Registrou-se que José Maria foi declarado “venerável” em 1990, beatificado em 1992 e, dez anos mais tarde, canonizado, pelo Papa João Paulo II. Extrai-se da revista “Sociedades Secretas”, da Editora Larousse, um texto curioso que se amolda ao teor deste pequeno estudo, ao comentar sobre o grupo sectarista romano “A Obra” (essa expressão tem alicerce maçônico). Decerto, a menção ao caso investigado é importante porque, sendo a história cíclica, o modelo sectarista é bastante recorrente, Veja aqui.

“[…] De fato, a Obra continua veiculando hoje expressivo número de fantasmas: é recriminada sucessivamente de ser uma seita, uma sociedade secreta trabalhando nos bastidores para Roma e angariando consideráveis somas de dinheiro, quando simplesmente não fosse uma ‘santa máfia’. Não o é até para certos eclesiásticos que se inquietam com uma ordem de idéias demasiado radicais e para quem a canonização de seu líder não era francamente uma prioridade da Igreja. E, no entanto, o sucesso é evidente: a Opus Dei conta hoje aproximadamente 80 mil membros disseminados no mundo inteiro, principalmente nos países de língua latina. Com boa penetração na cúria romana, a Obra conseguiu o apoio indefectível dos soberanos pontífices e vários cardeais não escondem que pertencem à ordem, a começar por Joaquim Navarro-Vall, nomeado por João Paulo II na função muito diplomática e particularmente sensível de porta-voz do Vaticano. A história da Opus Dei é indissociável da personalidade de seu fundador, José Maria Escrivá de Balanguer (1902-1975). Foi em outubro de 1928, por ocasião de um retiro espiritual, que o jovem padre tem uma revelação, contará depois que nesse dia Deus o intimou a fundar uma ordem na qual os leigos pudessem prosseguir sua vida cotidiana, aspirando ao mesmo tempo à santidade pela oração, pelo trabalho e pelas obras […]”.

Entrementes, segundo consta da mencionada revista publicada em maio de 2012, José Maria Ruiz Mateos, dirigente de um grande consórcio internacional, ligado à Opus Dei, em 1982, é acusado de fraude fiscal, numa investigação que revelaria o patrocínio do grupo sectário “A Obra”, pelo referido José Maria e o texto proclama:

“O escândalo Matesa revelou, por outro lado, curiosas conexões político-financeiras: a filial luxemburguesa da sociedade Matesa, a Sodetex, era dirigida pelo príncipe Jean de Broglie, tesoureiro dos republicanos independentes, partido de Valéry Giscard d’Estaing. E o pai deste último, Edmond, estava na chefia de um banco em que a Opus Dei, através do Banco Popular Español, acabava de adquirir 35% de participação…[…]”.

Em retorno á linha principal do tema, é significativo registrar que a linha sectarista tende a responder às críticas dirigidas aos seus dogmas escudando na Teoria da Conspiração. Nesse sentido, a Wikipédia informa que no final do século XX e inícios do XXI, as teorias da conspiração tornaram-se um lugar comum nos meios de comunicação, o que contribuiu para o conspiracionismo emergente como fenômeno cultural. Acreditar em teorias da conspiração tornou-se, assim, num tema de interesse para estudiosos em sociologia, psicologia, filosofia etc.

Assim é que, essa síndrome da perfeição eclesiástica leva o afetado a adotar o comportamento que na psicologia é denominada “transferência”, canalizando os questionamentos contrários à sua doutrina como sendo uma conspiração de um “inimigo”, criando uma vitimização inconsciente como contra-ataque aos questionamentos robustos. Destarte, quando pela sua fragilidade no debate do argumento sectarista, não há competência para atacar o pensamento contrário; ataca-se o pensador. É sintomático. Essa conscientização deve ser publicada para não se incorrer em heresia cujo teor não encontra respaldo bíblico.

Em considerações conclusivas – e não sei se este pequeno e singelo espaço conclui o que reclama maior aprofundamento no tema – vale aqui registrar que este singelo rabisco não possui o escopo de criticar, agredir ou atacar quaisquer grupos, mas o de conscientizar acerca de uma realidade que se vê amiúde. De toda sorte, o que se pretende é trazer subsídio, elementos e idéias inacabadas, para instigação de uma pesquisa sobre o tema, mesmo que palmilhando sobre alguns desacertos, possam outros, em maior profundidade, apontar a vereda correta. Deus nos conscientize e nos ensine todos os dias.


[1]SINONÍMIA: tribalismo eclesiástico, sectarismo religioso excludente, exclusivismo religioso, fundamentalismo religioso, monismo eclesiástico, fanatismo religioso, intolerância religiosa, mentalidade de gueto eclesiástico, síndrome da perfeição eclesiástica, separatismo religioso, inalteridade religiosa, etnocentrismo religioso, absolutismo da verdade revelacional, enclausuramento religioso inconsciente, isolacionismo espiritual, superioridade eclesiástica, xenofobia religiosa, casulo religioso exclusivista, tribalismo religioso.

[2]Jean-François Signier, Trad. Ciro Mioranza. “Sociedades Secretas”. V. 1.  A inquietante influência da “Opus Dei Larousse do Brasil Participações Ltda. São Paulo: 2012, p.72.

fonte: http://www.ezioluiz.com.br/2012/05/28/sectarismo-religioso-no-cristianismo/